Vocabulário CORE e FRINGE
- Silvana Costa
- há 2 dias
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A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) destina-se a pessoas que não usam a fala como forma preferencial de comunicação e/ou sem escrita funcional e/ou com algum desfasamento entre a sua necessidade comunicativa e as suas capacidades de falar. Pode acontecer sem auxílios externos e permite a valorização da expressão do sujeito a partir de outros canais de comunicação diferentes da fala como sejam os gestos, sons, expressões faciais e corporais, que podem ser utilizados e identificados socialmente para manifestar desejos, necessidades, opiniões, posicionamentos (3).

Esta é indicada para pessoas com necessidades complexas de comunicação das mais diversas idades e com as mais variadas possibilidades de acesso. E embora a sua adesão possa ser considera complexa, também a aquisição e desenvolvimento da linguagem é um processo complexo e não se realiza com reduzidos estímulos ou vocabulário limitado com uma ou duas funções (2,4).
Um sistema robusto de CAA pode ser caracterizado como um sistema com pictogramas/imagens/texto selecionados com base no conceito de “core words’’ e “fringe words”.

Core words (Palavras Essenciais) integram uma seleção de palavras composta por palavras nucleares da língua, que são em geral verbos, adjetivos, advérbios e pronomes, e raramente substantivos. Essas palavras, de modo geral, são altamente frequentes nas interações.

As Fringe words (Palavras Acessórias) representam os substantivos e uma gama de palavras associadas a contextos específicos e de interesse do usuário de CAA. Durante as interações, a modelagem é essencial para a introdução do vocabulário, concentrando-se em dar destaque ao uso do vocabulário essencial em 80% do tempo e em 20% ao vocabulário acessório (1).
Estudos realizados, envolvendo diferentes línguas e faixas etárias, apontam que aproximadamente 50 palavras usadas correspondem a 40-50% da comunicação diária. Cerca de 100 palavras representam 60% e 200-400 palavras representam 80% das palavras usadas todos os dias (2). Palavras essenciais referem-se então a um conjunto limitado de palavras que foram determinadas como muito úteis ou funcionais nos diferentes contextos que o utilizador está integrado, tendo pouca variabilidade entre indivíduos, enquanto que as Palavras Acessórias são especificas para atividades e funções (4).

Ao permitir o uso de um sistema robusto, os utilizadores de CAA dispõem de uma ferramenta de comunicação mais abrangente, que lhes permite obter de forma recetiva uma exposição mais ampla à linguagem por meio da modelagem, enquanto também têm a oportunidade de fazer as suas próprias combinações de símbolos, de forma a criar enunciados e para expressar uma ampla variedade de ideias e funções comunicativas, para além de pedidos. Dada a variedade de palavras disponíveis, promove-se o acesso aos padrões de construção frásica mais diversificados da língua materna do sujeito. (1)

Um dos aspetos mais importantes na introdução do vocabulário Core & Fringe é a escolha das palavras. Uma estratégia facilitadora será organizar as palavras em diferentes grupos de valor linguístico. Por exemplo, enquanto que num grupo 1, (ex: “ir” “mais” “encher”) serão palavras mais comuns que os utilizadores usam naturalmente no dia-a-dia nos seus contextos significativos e que não necessitam explicação; Num grupo 2 (ex: “fazer” “ser” “está”) serão palavras comuns para uma linguagem mais escrita e relativa a funcionalidade em diferentes domínios (4). Também importa enfatizar que, na construção de material de comunicação, a ordem do vocabulário é também importante face à estimulação de competências morfossintáticas e da narrativa do discurso.

Finalizamos com o realce da importância do trabalho em equipa (profissionais e família) na introdução deste vocabulário, pois deverá ser adaptado ao perfil comunicativo do indivíduo, tendo em conta as suas capacidades, interesses, necessidades e contextos. Deve haver uma contínua monitorização da evolução no uso da CAA, ajustando e acrescendo vocabulário regularmente.
Bibliografia
1. Montenegro, ACA, Silva LKSM, Bonotto RCS, Lima RASC, Xavier IALN (2022). Uso de sistema robusto de comunicação alternativa no transtorno do espectro do autismo. Rev. CEFAC
2. Sennott S, Light J, McNaughton D. (2016) AAC modeling intervention research review. Res Pract Pers with Sev Disabil. 41(2):101-15.
3. Marden J. (2015) Teaching with core words: building blocks for communication and curriculum. Commun Matters: 29(1):23-4.
4. Erickson Karen, Hatch P, Geist L,. (2021) Teaching core vocabulary words and symbols to students with complex communication needs. In: Assistive Technology Industry Association




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